Uma crise invisível germina sob o caos que se instalou no setor aeroviário. A encrenca ainda não foi percebida porque está escondida atrás do biombo da disciplina da caserna. Em privado, os militares já não reconhecem no ministro Waldir Pires (Defesa) a figura de um “chefe”. E receiam que Lula, ao trocá-lo, recorra a uma nova “solução improvisada.”
O blog conversou nesta quarta-feira com um oficial militar. Relutou em falar. Manteve a língua travada mesmo depois de ouvir a promessa do repórter de que seu nome não seria revelado. Exigiu proteção adicional: além do nome, deveriam ser mantidas em segredo a patente e a tonalidade do uniforme que enverga. Refugou o gravador. Com muito custo, admitiu que o repórter tomasse notas. Aceitas as condições, abriu o verbo.
Contou que os comandantes militares não contemplam a hipótese da permanência de Waldir Pires na pasta da Defesa. Acham que Lula já se convenceu da “inapetência” do amigo para o exercício do posto. Mas receiam que o presidente, ao substituí-lo, adote o que chamou de “nova solução improvisada.”
O repórter quis saber o que seria, na visão dos militares, um novo improviso. O interlocutor mencionou, de bate-pronto, o nome de Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Disse que um dos receios é o de que, fracassando no seu plano de ser reconduzido à presidência da Câmara, o “comunista” Aldo receba a Defesa como “prêmio de consolação”.
O oficial lembrou que Aldo já freqüentou a lista de “candidatos” à pasta da Defesa quando da substituição do diplomata José Viegas, a quem chamou de “primeiro fiasco” imposto aos militares sob Lula. Terminou prevalecendo a opção José Alencar, o “segundo fiasco”.
Disse que os militares soltaram “salvas de tiros” quando Lula acomodou o vice-presidente no Ministério da Defesa. Foram três as razões dos festejos: 1) “Nós nos livramos do Viegas”; 2) “Nós não tivemos que engolir o senhor Rebelo”; 3) “Nós imaginávamos que, com a autoridade de vice-presidente, o senhor Alencar teria forças para desengavetar velhas demandas, relacionadas à liberação de recursos para o reaparelhamento das Forças Armadas.”
Alencar mostrou-se “sensível” às demandas. Mas a tropa não tardou a perceber, disse o oficial, que o Planalto “fazia ouvidos de mercador” para as reivindicações encampadas pelo ministro. Sentindo-se “peça decorativa”, o próprio vice-presidente decidiu abdicar do acúmulo de funções. E sobreveio Waldir Pires, o “terceiro fiasco.”
Segundo o oficial, Waldir Pires, que já fora recebido “com um pé atrás”, terminou de inviabilizar-se perante a tropa ao imprimir à crise do setor aéreo “contornos sindicais.” Para os militares, a crise “ameaça a segurança nacional”. Por isso exigia, nas palavras do interlocutor do repórter, “soluções militares.” Mencionou a decisão do Comando da Aeronáutica de impor aos controladores de vôo uma espécie de “regime de aquartelamento.” E lamentou: “Nós fomos desautorizados.”
Ao abrir negociação salarial com a corporação dos controladores de vôo, Waldir Pires teria disseminado a “cizânia” entre os nacos civil e militar da categoria. De resto, o ministro desagradou os comandados ao admitir como plausível a tese de que a solução da crise aérea passa pela “desmilitarização” do setor. Vendeu-se à sociedade, disse o oficial, “a idéia de que o problema são os militares.”
O oficial disse estar convencido de que o caos vivenciado nos aeroportos nos últimos dois dias decorre de “sabotagem”. Insinua que teria sido praticada por controladores civis. Acredita que as investigações irão “desmascarar os responsáveis”. Por último, fez questão de dizer que não há na seara militar uma atmosfera de “rebelião”.
Atribuiu o descontentamento a “um clima de desalento”. Algo que, segundo disse, seria facilmente contornado com a nomeação para o Ministério da Defesa de “uma pessoa que os militares possam reconhecer como um verdadeiro chefe.” Não quis mencionar nomes. Disse apenas que precisa ser "uma solução técnica."
Fonte: Folha de S. Paulo - Blog do Josias de Souza
Autor: Josias de Souza
Data: 07/12/2006
Link: http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/arch2006-12-03_2006-12-09.html#2006_12-07_01_52_18-10045644-0
O blog conversou nesta quarta-feira com um oficial militar. Relutou em falar. Manteve a língua travada mesmo depois de ouvir a promessa do repórter de que seu nome não seria revelado. Exigiu proteção adicional: além do nome, deveriam ser mantidas em segredo a patente e a tonalidade do uniforme que enverga. Refugou o gravador. Com muito custo, admitiu que o repórter tomasse notas. Aceitas as condições, abriu o verbo.
Contou que os comandantes militares não contemplam a hipótese da permanência de Waldir Pires na pasta da Defesa. Acham que Lula já se convenceu da “inapetência” do amigo para o exercício do posto. Mas receiam que o presidente, ao substituí-lo, adote o que chamou de “nova solução improvisada.”
O repórter quis saber o que seria, na visão dos militares, um novo improviso. O interlocutor mencionou, de bate-pronto, o nome de Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Disse que um dos receios é o de que, fracassando no seu plano de ser reconduzido à presidência da Câmara, o “comunista” Aldo receba a Defesa como “prêmio de consolação”.
O oficial lembrou que Aldo já freqüentou a lista de “candidatos” à pasta da Defesa quando da substituição do diplomata José Viegas, a quem chamou de “primeiro fiasco” imposto aos militares sob Lula. Terminou prevalecendo a opção José Alencar, o “segundo fiasco”.
Disse que os militares soltaram “salvas de tiros” quando Lula acomodou o vice-presidente no Ministério da Defesa. Foram três as razões dos festejos: 1) “Nós nos livramos do Viegas”; 2) “Nós não tivemos que engolir o senhor Rebelo”; 3) “Nós imaginávamos que, com a autoridade de vice-presidente, o senhor Alencar teria forças para desengavetar velhas demandas, relacionadas à liberação de recursos para o reaparelhamento das Forças Armadas.”
Alencar mostrou-se “sensível” às demandas. Mas a tropa não tardou a perceber, disse o oficial, que o Planalto “fazia ouvidos de mercador” para as reivindicações encampadas pelo ministro. Sentindo-se “peça decorativa”, o próprio vice-presidente decidiu abdicar do acúmulo de funções. E sobreveio Waldir Pires, o “terceiro fiasco.”
Segundo o oficial, Waldir Pires, que já fora recebido “com um pé atrás”, terminou de inviabilizar-se perante a tropa ao imprimir à crise do setor aéreo “contornos sindicais.” Para os militares, a crise “ameaça a segurança nacional”. Por isso exigia, nas palavras do interlocutor do repórter, “soluções militares.” Mencionou a decisão do Comando da Aeronáutica de impor aos controladores de vôo uma espécie de “regime de aquartelamento.” E lamentou: “Nós fomos desautorizados.”
Ao abrir negociação salarial com a corporação dos controladores de vôo, Waldir Pires teria disseminado a “cizânia” entre os nacos civil e militar da categoria. De resto, o ministro desagradou os comandados ao admitir como plausível a tese de que a solução da crise aérea passa pela “desmilitarização” do setor. Vendeu-se à sociedade, disse o oficial, “a idéia de que o problema são os militares.”
O oficial disse estar convencido de que o caos vivenciado nos aeroportos nos últimos dois dias decorre de “sabotagem”. Insinua que teria sido praticada por controladores civis. Acredita que as investigações irão “desmascarar os responsáveis”. Por último, fez questão de dizer que não há na seara militar uma atmosfera de “rebelião”.
Atribuiu o descontentamento a “um clima de desalento”. Algo que, segundo disse, seria facilmente contornado com a nomeação para o Ministério da Defesa de “uma pessoa que os militares possam reconhecer como um verdadeiro chefe.” Não quis mencionar nomes. Disse apenas que precisa ser "uma solução técnica."
Fonte: Folha de S. Paulo - Blog do Josias de Souza
Autor: Josias de Souza
Data: 07/12/2006
Link: http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/arch2006-12-03_2006-12-09.html#2006_12-07_01_52_18-10045644-0
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