Por Roberto Dultra, presidente da Associação Brasileira do Turismo Receptivo Internacional (Bito)
Um mês depois do acidente em Congonhas, a mídia brasileira e internacional dedicou dezenas de páginas a especular sobre as prováveis causas. Há quem culpe a falta de grooving na pista do aeroporto. Outros apontam a inoperância do reversor de uma das turbinas. No entanto, ninguém aponta a verdadeira origem do problema: a óbvia falta de interesse do governo federal em tomar as medidas necessárias à modernização do setor da aviação civil no Brasil.
Em todo o mundo, o transporte aéreo segue o modelo da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), a agência das Nações Unidas criada no pós-guerra para organizar o desenvolvimento da aviação civil sem as limitações do sistema militar. A OACI é bem clara quanto à necessidade de a aviação civil estar separada dos militares - mas, infelizmente, suas recomendações não são obrigatórias, pois os países são soberanos. E só dois deles fazem diferente: Brasil e Uganda. No Brasil, a aviação nunca saiu das mãos dos militares. A própria Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) está abaixo do Ministério de Defesa. De civil, só tem fachada.
Há mais de 20 anos, o governo brasileiro encomendou à OACI um estudo para melhorar a infra-estrutura da aviação civil. A OACI reuniu uma equipe de peritos de vários países e criou o projeto denominado PNUD/ OACI/ BRA/87/001 (PNUD quer dizer Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), cujo centro de operações foi instalado junto ao DAC, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Um de seus principais objetivos era a criação de uma escola de aviação para formar pilotos, controladores de vôo e administradores de aeroportos, com o intuito de fazer uma transição gradual do controle dos militares para os civis.
Infelizmente, esse projeto foi desvirtuado assim quando a formação dos primeiros grupos de profissionais mostrou aos militares que eles começariam a perder o controle sobre a aviação civil. O conhecimento gerado pelo projeto continua nas mãos dos militares e nada foi feito até agora para modernizar o setor de transporte aéreo no Brasil. Os países membros da OACI têm uma delegação permanente na sede da entidade e enviam "delegados" para participar de conferências e cursos sobre os assuntos da aviação. São cargos disputadíssimos. Há décadas que o Brasil vem mantendo sua delegação em Montreal, onde fica a sede da Agência.
Não critico o fato de o Brasil manter uma delegação na OACI. As perguntas que me angustiam são: o que está fazendo a Aeronáutica com todo o conhecimento que obtém através dessa delegação permanente em Montreal? Até quando esse "monopólio do conhecimento" será mantido, sem qualquer aplicação que resulte em melhorias do setor aéreo brasileiro?
Como se explica o fato de a Embraer não conseguir vender aviões para empresas brasileiras, apesar do grande sucesso que faz no resto do mundo? Isso só pode ser resultado da total falta de atenção do governo, que permite que as companhias aéreas, por pura ganância, operem com aviões cada vez maiores e mais pesados.
Que Deus ilumine nosso novo ministro da Defesa, Nelson Azevedo Jobim, dando a ele condições e coragem para resgatar os verdadeiros objetivos do Projeto PNUD e recolocando o Brasil no rol dos países realmente em desenvolvimento.
Fonte: http://jbonline.terra.com.br/editorias/pais/papel/2007/08/30/pais20070830017.html
Um mês depois do acidente em Congonhas, a mídia brasileira e internacional dedicou dezenas de páginas a especular sobre as prováveis causas. Há quem culpe a falta de grooving na pista do aeroporto. Outros apontam a inoperância do reversor de uma das turbinas. No entanto, ninguém aponta a verdadeira origem do problema: a óbvia falta de interesse do governo federal em tomar as medidas necessárias à modernização do setor da aviação civil no Brasil.
Em todo o mundo, o transporte aéreo segue o modelo da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), a agência das Nações Unidas criada no pós-guerra para organizar o desenvolvimento da aviação civil sem as limitações do sistema militar. A OACI é bem clara quanto à necessidade de a aviação civil estar separada dos militares - mas, infelizmente, suas recomendações não são obrigatórias, pois os países são soberanos. E só dois deles fazem diferente: Brasil e Uganda. No Brasil, a aviação nunca saiu das mãos dos militares. A própria Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) está abaixo do Ministério de Defesa. De civil, só tem fachada.
Há mais de 20 anos, o governo brasileiro encomendou à OACI um estudo para melhorar a infra-estrutura da aviação civil. A OACI reuniu uma equipe de peritos de vários países e criou o projeto denominado PNUD/ OACI/ BRA/87/001 (PNUD quer dizer Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), cujo centro de operações foi instalado junto ao DAC, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Um de seus principais objetivos era a criação de uma escola de aviação para formar pilotos, controladores de vôo e administradores de aeroportos, com o intuito de fazer uma transição gradual do controle dos militares para os civis.
Infelizmente, esse projeto foi desvirtuado assim quando a formação dos primeiros grupos de profissionais mostrou aos militares que eles começariam a perder o controle sobre a aviação civil. O conhecimento gerado pelo projeto continua nas mãos dos militares e nada foi feito até agora para modernizar o setor de transporte aéreo no Brasil. Os países membros da OACI têm uma delegação permanente na sede da entidade e enviam "delegados" para participar de conferências e cursos sobre os assuntos da aviação. São cargos disputadíssimos. Há décadas que o Brasil vem mantendo sua delegação em Montreal, onde fica a sede da Agência.
Não critico o fato de o Brasil manter uma delegação na OACI. As perguntas que me angustiam são: o que está fazendo a Aeronáutica com todo o conhecimento que obtém através dessa delegação permanente em Montreal? Até quando esse "monopólio do conhecimento" será mantido, sem qualquer aplicação que resulte em melhorias do setor aéreo brasileiro?
Como se explica o fato de a Embraer não conseguir vender aviões para empresas brasileiras, apesar do grande sucesso que faz no resto do mundo? Isso só pode ser resultado da total falta de atenção do governo, que permite que as companhias aéreas, por pura ganância, operem com aviões cada vez maiores e mais pesados.
Que Deus ilumine nosso novo ministro da Defesa, Nelson Azevedo Jobim, dando a ele condições e coragem para resgatar os verdadeiros objetivos do Projeto PNUD e recolocando o Brasil no rol dos países realmente em desenvolvimento.
Fonte: http://jbonline.terra.com.br/editorias/pais/papel/2007/08/30/pais20070830017.html
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