Análises do Setor Aéreo

"Mais importante que o lucro é a vida"

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Checadores Militares a Bordo - Perigo! Perigo!

[Existem profissões que não permitem erros. Ayrton Senna que nos conte na calada do céu.]

Tá certo que presidir o Congresso Nacional não é uma tarefa tão perigosa como ser presidido por um aventureiro cavalgadura (ou seria cavalcantedura). O cirurgião é outro bom exemplo, tanto que a melhor parte de sua vida é dedicada aos estudos anatômicos para permitir que seu bisturi tenha um endereço certo. Já o jornalista tem todo o direito de errar com o dever de não se calar. Tenho muitos amigos na Força Aérea Brasileira (FAB), gente culta, honesta, dedicada e merecedora de sua farda. Como todos nós sabemos a aviação brasileira "ainda" é controlada pelos militares da Força. Essa mesma Força Aérea que conta mais de 130.000 membros e umas poucas "avionetas" para manter a chama. Por conta desse estado de miserabilidade, seu efetivo que em tese teria de estar próximo dos aviões só os vê em calendários e nas páginas das revistas de aviação. O problema é que desde os primórdios da nossa aviação a Força Aérea ficou incumbida de fiscalizar tudo e todos os atores desse circo chamado "aviação brasileira". Digo circo pelos mazelentos que insistem em manter-se grudados nas funções que já não desempenham com segurança. Talvez a culpa não seja deles, mas... Nossa, dos aviadores civis, é que não é.

Acabo de receber a notícia de mais um incidente durante um vôo de avaliação em que um checador credenciado do Departamento de Aviação Civil (DAC) protagonizou ao lado de um aluno/piloto que acabara de fazer o curso para instrutor de vôo.

O equipamento utilizado foi o meu querido Aeroboero PT GOT do também meu querido Aeroclube de São Paulo. A "crosoba" (pra não dizer cagada) aconteceu na pista do Campo de Marte, em São Paulo, numa manhã ensolarada e com uma brisa tão cálida que a velocidade do vento não chegava a 6 míseros nós.

O aluno perdeu o controle do avião ao tocar o solo e o checador que deveria estar atento para uma hipotética e providente interferência não se mostrou capaz de fazê-lo. O aluno tinha apenas 30 horas de vôo no equipamento. Logo que recebi a notícia liguei para o Cel. Nelson, chefe do 4o Serviço Regional de Aviação Civil (SERAC IV), que surpreso comentou: "Juca, isso acontece mesmo".

[A história mostra o despreparo desses checadores desfamiliarizados com o equipamento.]

Não coronel, isso não pode acontecer simplesmente. A história mostra o despreparo desses checadores desfamiliarizados com o equipamento. Muitos acidentes já ocorreram por conta da irresponsabilidade de alguns militares que não têm a grandeza de reconhecer sua inaptidão. Permitir que um aviador/militar despreparado decole a bordo de uma aeronave voando sobre nossas cabeças sem a devida capacidade para fazê-lo é tão criminoso quanto fazê-lo. Algo tem que ser feito em caráter emergencial para evitarmos acidentes como o que ocorreu em Riberião Preto anos atrás, onde um Learjet se espatifou no solo causando vítimas fatais durante um vôo de avaliação. Poderia enumerar tantos outros, porém é mais produtivo alertar as autoridades aeronáuticas sobre o despreparo desses profissionais e também do usuário que deve procurar saber se o "imponente" checador do DAC está capacitado para avialiá-lo. Que o SERAC IV nos comprove as horas somadas desse checador no avião utilizado, no caso um Aeroboero. A Freqüência Livre vai publicar na próxima edição a experiência desse checador.

Quanto aos vôos de check, que ocorrem obrigatoriamente quando o aviador não soma um número mínimo de horas durante a validade de sua carteira, é prudente evitar avaliadores militares.

Infelizmente, no Brasil, não existem associações sérias e atuantes. Destruíram a APPA (Associação de Pilotos e Proprietários de Aeronaves), que na prática deveria executar essas avaliações como acontece nos EUA.

Os aviadores brasileiros estão completamente desamparados principalmente quando da revalidação de suas carteiras. O piloto procura o SERAC da região e recebe um telefone celular de um checador previamente indicado, que na maioria dos casos executa a missão com má vontade e, por vezes, sem a menor condição técnica de fazê-lo.

Mais uma mancha no outrora belo trabalho da Força Aérea Brasileira... Lamentável!

Autor: Antonio Carlos Juca Fernandes
Fonte: Revista Freqüência Livre - Ano 3 - Número 20

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"Quando falamos sobre alguém que perdeu a vida em um acidente, por algum erro operacional inadmissível, devemos sempre lembrar do seguinte: Ele lançou mão de todos os seus conhecimentos e tomou uma decisão. Ele acreditava tanto nesta decisão que apostou nela a sua vida. O fato de ele ter errado não é uma estupidez... é uma tragédia. Todos os chefes e colegas que tiveram contato com ele, tiveram a oportunidade de influenciar o seu julgamento. Por isso, cada vez que alguém se vai em um acidente, um pouco de cada um de nós também vai junto."